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Dramaturgia do real

2|setembro|2008

Crônicas de Guarnieri são reunidas em edição impecável.
Por Marcos Stefano

CLIQUE PARA AMPLIAR ESTA IMAGEMGianfrancesco Guarnieri é reconhecido, com justiça, por sua criação teatral. Como autor, ator, compositor e diretor, teve contribuição primordial para a dramaturgia brasileira. Outra face menos conhecida do autor de Eles não usam black-tie é a de cronista. Talvez pelo pouco tempo em que se dedicou ao ofício, mas nunca pela falta de qualidade de seus textos.

Convidado por Jorge da Cunha Lima para escrever diariamente na segunda página do recém-lançado caderno UH-Revista do jornal Última Hora de São Paulo, às vésperas do golpe militar, Guarnieri apresentou nos meses de fevereiro, março e abril de 1964 uma autêntica dramaturgia do real. Ali, ele contou histórias de personagens do cotidiano popular: trabalhadores urbanos, desempregados, sindicalistas, lutadores, gente do campo. Na labuta profissional ou diante das limitações privadas, desenha-se em sua produção o retrato da época, com forte ênfase na injustiça social, na luta contra latifundiários e poderosos e no clamor por mudanças. Agora, esse material foi reunido no livro Crônicas 1964, pelo jornalista Worney Almeida de Souza.

Ao todo são 46 crônicas acompanhadas das mesmas ilustrações da época, feitas pelo cartunista Otávio, e Primeiro Filho - Clique para ampliarpor criatividade e sutil habilidade artística para denunciar mazelas e fazer crítica social sem recorrer a palavras de ordem ou à beligerância que caracterizou o acirramento entre esquerda e direita no período. É a partir daí que surgem personagens como a liberal Vó Zuleica (abaixo), a ingênua Silvia, uma menina que não conseguia ver a discriminação que sofria na escola por causa de sua cor, e as desventuras do operário Pedro e de sua esposa Alice para terem seu primeiro filho (ao lado).

- Guarnieri era militante do PCB e encarava o ato de escrever como parte de sua missão na promoção da revolução. Ainda mais porque a oportunidade havia surgido em um grande jornal. Nesse tempo, em que a televisão ainda engatinhava, os jornais eram o grande meio de comunicação, muito mais lidos e com várias edições durante um único dia. Entretanto, não era panfletário ou superficial. Seus textos provocavam a reflexão. Traziam traços característicos de quem escreve para teatro: personagens bem construídos e robustos. A pesquisa que fazia para suas peças e o contato que tinha com o movimento popular faziam com que o leitor se identificasse com as situações que enfrentava no dia-a-dia – explica Worney, um jornalista especializado em histórias em quadrinhos, que encontrou o material por casualidade, enquanto fazia uma pesquisa sobre as tiras publicados em Última Hora.

Realizar essa missão não era tarefa das mais fáceis, mesmo com todo o talento de Guarnieri. Como na época os espetáculos eram encenados de terça a domingo, chegando a ter até três apresentações nos finais de semana, ele tinha poucos minutos para escrever seus textos, antes que um funcionário do jornal viesse pegá-los. Nem o jornal não saindo aos domingos – outra característica daquele tempo – dava muita folga.

Vó Zuleica - CLIQUE PARA AMPLIAR ESTA IMAGEM- O que me ajudava – afirmou o próprio Guarnieri numa entrevista que concedeu a Worney antes de morrer em 2006 e que o jornalista publica junto com a obra – era que o universo sobre o qual tratava era o mesmo de minhas peças. Criar as personagens trazia um sentimento de solidariedade com a vida, com as crianças e sua condição de sobrevivência.

Nas páginas de Crônicas 1964 também é possível ver a vida nos tumultuados anos 60, com toda sua agitação política e social e mudanças de comportamento. Por isso, Worney não se descuida com a contextualização, procurando resgatar a importância da obra também por meio da apresentação do panorama criativo das artes naquele tempo e a situação política e social dos meses que antecederam o golpe militar. Assim, é possível perceber que, à medida que os confrontos eram mais patentes e agudos, as crônicas de Guarnieri também se tornavam cada vez mais incisivas e críticas, refletindo movimentos como as greves dos sargentos e ferroviários.

Apesar de datada, a produção de Guarnieri em Crônicas 1964 traz uma sensação diferente para o leitor. Não somente a nostalgia de um grande talento e de uma época de esperança, mas a clareza de que, quase meio século depois, seus temas continuam mais atuais do que nunca e oportunos para uma nova leitura.

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