“Um exemplo para o Brasil”. O grito anônimo foi ouvido apenas por parte da multidão – mais de 500 pessoas –, que lotou o Cemitério da Consolação, em São Paulo, naquela manhã de quinta-feira. Talvez por causa do choro e da forte comoção que tomaram conta do lugar, apenas amigos, familiares, colegas de trabalho e políticos que estavam mais próximos puderam ouvir a última homenagem, feita enquanto o corpo de Ruth Cardoso descia à terra. Apesar disso, expressou um sentimento comum a todos os brasileiros. De fato, a antropóloga e ex-primeira dama, falecida dois dias antes, em 24 de junho, devido a uma grave arritmia causada por uma doença coronariana, foi uma mulher à frente do seu tempo. Tanto na academia, com estudos inovadores, quanto em seu trabalho social, durante o Governo do marido, o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, quando transformou o assistencialismo governamental em iniciativas de desenvolvimento social.
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Em meados da década de 50, quando o tema ainda era muito árido e distante, ela estudou a imigração japonesa para São Paulo e transformou o assunto em tese universitária. Quando voltou do exílio imposto pelo golpe de 64, transformou-se em um dos primeiros acadêmicos brasileiros a discutir a emergência dos movimentos sociais baseados nas diversidades, como os feministas, étnico-raciais e de orientação sexual. Até a década de 70, as universidades consideravam que esses movimentos não tinham status para merecer a atenção das pesquisas, mas Ruth já os chamava de “os novos movimentos sociais”. No Centro Brasileiro de Análise e Planejamento-Cebrap, em começos dos anos 80, montou uma equipe para pesquisar os diversos movimentos sociais de então, visualizando uma sociedade participativa em tempos nos quais as organizações não-governamentais ainda eram desconhecidas.
– Ela escreveu pouca coisa, mas toda a sua produção é de grande importância. Foi uma grande antropóloga e excelente professora. Isso sempre, seja no palácio, na universidade ou em viagens – declara Roberto DaMatta, antropólogo da Universidade de Notre Dame, em Indiana, Estados Unidos.
Alguns desses trabalhos são Sociedade e Poder: representações dos favelados em São Paulo, trabalho escrito em 1978 e que foi considerado um marco do estudo das estruturas de poder nas grandes cidades, Bibliografia Sobre a Juventude e Mudança Sociocultural e Participação Política nos Anos 80.
– Ruth sempre foi independente, o que na universidade se traduzia pela crítica acirrada a concepções que dominaram por muito tempo o debate intelectual. Para ela, as manifestações populares como carnaval, futebol e religiosidade, não poderiam ser explicadas apenas como manipulação dos trabalhadores ou, por outro lado, como reação ao sistema. Algo que mudou a visão da academia. Seus estudos eram muito avançados e exploravam a heterogeneidade dessas experiências e o espaço que abriam para novas práticas políticas feitas nos bairros, na periferia, nos movimentos sociais –, explica Lilia Moritz Schwarcz, professora do Departamento de Antropologia da USP.
Programas sociais
Entre 1995 e 2002, quando Fernando Henrique presidiu o País, Ruth colocou o conhecimento que produziu na prática. Decretou o fim da Legião Brasileira de Assistência (LBA) e fundou e presidiu o Comunidade
Solidária. Com os diversos programas sociais desenvolvidos, 2,5 milhões de jovens foram alfabetizados nos Municípios mais pobres do País, estudantes e professores universitários participaram de ações sociais em comunidades carentes e mais de 100 mil jovens foram treinados para o mercado de trabalho nas grandes regiões metropolitanas.
– Como estava solta de amarras e das concessões de Governo, ela tornou-se símbolo de dignidade e correção. Mais importante era ter programas distanciados do assistencialismo e sustentados na concepção da inclusão produtiva. Jovens, por exemplo, não recebiam dinheiro, mas incentivo para aprender profissões ao alcance de suas realidades: DJs, dançarinos, cabeleireiros ‘afro’ e outras –, analisa a jornalista Dora Kramer em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo.
Ruth ainda foi uma das mentoras do Bolsa-Escola, mais tarde unificado com outros programas federais que deram origem ao Bolsa-Família, carro-chefe do Governo Lula. Mas as marcas de seu trabalho na área são mais vastas. Ao deixar Brasília, ela já dizia que queria manter as brigas que havia começado. Para isso, criou a Comunitas, rede de organizações que deu continuidade aos programas gerados pelo Comunidade Solidária.
– Essa dimensão utópica do nome fez parte do trabalho real desde o começo graças à visão dela. Hoje, a sociedade brasileira já não espera tudo do Estado. São as parcerias entre os diversos atores que sustentam o trabalho, diga-se, investindo em capital humano, em mudanças sociais e não em apenas dar dinheiro, sem dar condições de futuro. Ruth se foi, mas esses seus sonhos, princípios e idéias continuam mais vivos que nunca –, diz Renata Camargo Nascimento, atual presidente da Comunitas.
Ser brigadora, ainda mais por sonhos, foi uma virtude presente desde cedo em Ruth Vilaça Correia Leite Cardoso. Paulista de Araraquara, onde nasceu em 19 de setembro de 1930, foi para a capital paulista para estudar. Na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Usp, formou-se e também conheceu Fernando Henrique, com quem se casou em 1953 e teve três filhos: Luciana, Paulo Henrique e Beatriz. Construiu uma sólida carreira acadêmica como docente e pesquisadora na própria Usp, Universidade do Chile, em Santiago do Chile, Maison dês Sciences de L’Homme, de Paris, Universidade de Cambridge, em Londres, Universidade de Berkeley, Califórnia, e na Universidade de Columbia, Nova York, entre outras.
Se era desconfiada e contestadora na academia, na vida pública não foi diferente. Agnóstica e humanista, a intuição era uma das suas mais notáveis características, segundo amigas e colegas. Na década de 80, quando FHC começava na carreira política, resistiu a deixar a vida acadêmica para se mudar para Brasília. Já no Governo, parecia ser não só a grande conselheira do marido, como a face mais franca e progressista do poder. Tanto que causou estragos ao dizer sem meias palavras que o PFL – hoje Democratas – tinha dois lados e o então Senador Antônio Carlos Magalhães era o lado ruim.
Apesar de dizer que “partido não era com ela”, a prática política sempre esteve entranhada em sua vida. Quando os filósofos Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir estiveram no Brasil, em 1960, houve muita polêmica por causa daquilo que defendiam. Mas não para o casal que se sentou na primeira fila do auditório acadêmico para os ouvir: Ruth e FHC. Feminista declarada, ela também entrou na luta pela legalização do aborto, o qual considerava ser uma liberdade de decisão da mulher.
– A trajetória de Ruth sempre nos inspirou e nos mostrou como a mulher pode ajudar a mudar a sociedade. Lembro-me de 1985, quando ajudamos a criar na Usp o Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero. Foi uma revolução: enfrentar a mais importante universidade da América Latina, que ignorava a presença feminina entre docentes, pesquisadores e alunos – conta em artigo publicado no Estadão a cientista social e também professora da Usp Eva Blay.
Respeitada até por quem se opunha a seu trabalho, Ruth se dava bem com todo mundo, menos, segundo os amigos mais próximos, com jornalistas e políticos em geral. Na verdade, ela detestava microfones, holofotes e futricas de bastidores. Em diversas ocasiões, criticou a obsessão da mídia por sua vida: – Vou resistir à imprensa até o fim. Por que essa mistura do público e do privado? – esbravejou ela em 1994, durante o auge do assédio na campanha de FHC. De fato, durante o Governo apenas os amigos mais íntimos tiveram acesso à residência presidencial.
Ainda assim, as duas melhores definições da importância do trabalho da ex-primeira-dama, que aliás detestava ser chamada assim, parecem ter vindo mesmo de jornalistas: – Margaret Trudeau, jovem esposa do então Primeiro-Ministro do Canadá, Pierre, costumava dizer que queria ser algo mais que uma rosa na lapela de seu marido. Sem se valer de sentenças de protesto ou de auto-afirmação, Ruth Cardoso conseguiu ser bem mais que uma rosa no paletó de Fernando Henrique. Iluminou veredas com a energia de suas idéias –, afirma Gaudêncio Torquato, também professor da Usp.
Já Ricardo Kotscho, que poucas semanas antes da morte de Ruth, fez uma longa entrevista com FHC sobre sua rotina, na qual o ex-Presidente falava com alegria do tempo que dispunha para ir com a esposa a concertos, teatros e restaurantes, sem seguranças, como um cidadão comum, foi bem direto: – A maioria dos mortais passa pela vida e apenas deixa saudades para parentes e amigos próximos. Outros poucos, como Ruth Cardoso, deixam a marca de uma obra a serviço da sociedade. No caso dela e de FHC, não tem essa história de que atrás de um grande homem tem uma grande mulher ou vice-versa. Nenhum dos dois passou a vida atrás do outro. Cada um fez a sua própria carreira e escreveu a própria história. E elas permanecem.
Por Marcos Stefano